Bullying não é brincadeira, é violência
Durante décadas, a violência na escola foi reduzida a termos suaves como "zoação", "brincadeira de criança" ou indisciplina passageira. Mas, pela psicologia, o bullying é um padrão sistemático, intencional e repetido de agressão, dominação e opressão. Atinge a vítima em várias dimensões, física, verbal, emocional, psicológica, moral e sexual, com o objetivo de rebaixar a dignidade de quem é percebido como mais frágil.
A palavra inglesa não tem um equivalente único em português, mas resume um conjunto de comportamentos graves: assédio moral, ameaça, maus-tratos cotidianos, intimidação. Não é uma divergência pontual nem uma provocação mútua entre crianças. É um exercício desigual de poder, que desorganiza a estrutura psíquica e fere direitos fundamentais do desenvolvimento.
A gravidade dessa violência apareceu de forma trágica no caso de Carlos Teixeira, um menino de 13 anos de Praia Grande, no litoral de São Paulo. Ele foi agredido repetidas vezes por colegas na escola, num lugar que os próprios alunos chamavam de "banheiro da morte". A família havia alertado a escola sobre episódios anteriores. Dias depois das agressões, o adolescente morreu, num caso que comoveu o país. A história de Carlos mostra o custo humano da omissão e enterra de vez a ideia de que o bullying é uma fase inofensiva da juventude.
O bullying homofóbico e as marcas invisíveis
O olhar do outro e a vergonha de contar
Para a juventude LGBTQIAPN+, a escola sob bullying pode ser especialmente cruel. Muitas vezes, a descoberta da própria orientação sexual ou identidade de gênero não acontece num processo interior tranquilo, e sim pela violência do olhar acusador, do dedo apontado e do julgamento. A criança ou o adolescente vira alvo de risadas e agressões por causa do jeito, do tom de voz, da postura ou das preferências, antes mesmo de ter maturidade para entender o que significa ser gay, lésbica, bi ou trans.
Isso gera uma vergonha paralisante. Quem sofre bullying homofóbico raramente consegue contar aos pais, professores ou à direção da escola. Para denunciar, precisaria falar justamente do motivo pelo qual está sendo agredido, algo que a própria pessoa ainda está tentando entender. O resultado é uma barreira de silêncio e um isolamento devastador.
Do isolamento à vulnerabilidade na vida adulta
Sem apoio da escola e da família, adolescentes criam estratégias desesperadas para sobreviver. O isolamento vira armadura: abandona os esportes e o convívio em grupo, evita a quadra e o vestiário, e passa a fugir da escola. Para que os pais não descubram as faltas, chega a passar tardes inteiras sem companhia em lojas de departamento ou praças de shopping. Eu mesmo matei muitas aulas andando pelo antigo Mappin.
O trauma não elaborado pode se desdobrar em quadros graves. Violências sexuais sofridas em ambientes desprotegidos, como um vestiário, podem levar ao fechamento psíquico, à fobia social, à depressão, à autolesão e à compulsão alimentar. Em alguns casos, o ganho de peso aparece como uma couraça inconsciente, uma tentativa de se tornar desinteressante ao olhar de quem agride.
Também acontecem distorções espirituais da dor. É comum a pessoa internalizar uma culpa tóxica e, influenciada por interpretações religiosas ou cármicas distorcidas, passar a acreditar que merece o sofrimento, como punição por erros ou pecados de outras vidas.
Essas marcas da infância e da adolescência seguem para a vida adulta. A violência normalizada na formação da personalidade corrói a autoestima. Quem se convence de que não merece afeto e respeito fica muito vulnerável a relações abusivas. Não é raro encontrar adultos LGBTQIAPN+ que permanecem em relacionamentos com humilhações, chantagens e agressões físicas graves, por acreditarem que não merecem ser amados e por terem perdido a capacidade de colocar limites.
A responsabilidade de pais, escolas e profissionais
A ilusão da escola "sem bullying" e o psicólogo escolar
É uma promessa falsa, e comercialmente desonesta, uma escola se anunciar como "sem bullying". Intimidar, hostilizar e rebaixar o outro é um comportamento arquetípico, que nasce das fragilidades e disputas da convivência em grupo. O que diferencia uma escola ética não é a ilusão de que o bullying não existe, e sim a forma como ela age quando ele aparece.
As escolas precisam ir além das punições burocráticas, como advertência, suspensão ou transferência, e assumir ações educativas permanentes, de mediação e de cultura. A Lei nº 13.935/2019 já prevê psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de educação básica, e é preciso cobrar que essa presença de profissionais se torne realidade nas escolas públicas e privadas.
O trabalho do psicólogo escolar não deve se limitar a avaliar dificuldades de aprendizagem, como dislexia ou discalculia, nem só ao acompanhamento da inclusão de estudantes neurodivergentes, demandas que pertencem também ao campo clínico e multiprofissional. Na escola, ele deve fortalecer o clima institucional, criar espaços de escuta para estudantes, professores, funcionários e famílias, mediar conflitos e desenvolver projetos contínuos contra o preconceito e a violência.
A escuta dos pais
Pais e responsáveis têm um papel central para quebrar o silêncio. É indispensável um ambiente em casa de escuta atenta e sem julgamento. Desatenção, tratar o relato como "frescura" ou culpar a própria criança pelas agressões são atitudes muito nocivas. A família não pode se omitir nem transferir para a escola toda a responsabilidade pelo acolhimento e pela proteção.
O dever ético e legal dos profissionais de saúde
O atendimento de crianças e adolescentes agredidos exige rigor ético, empatia e cumprimento dos deveres legais. Omissão e truculência no atendimento de urgência são violações inaceitáveis.
É assustador saber de casos em que um adolescente de 13 anos, espancado, com dor intensa e sem conseguir respirar, é tratado aos gritos, tem a queixa de dor no peito ignorada, faz apenas um raio-X do ombro e é mandado para casa com um diagnóstico apressado de "escoliose". Essa falha, que nega o socorro adequado e trata como exagero dores de traumas físicos reais, pode custar vidas.
Profissionais de saúde em prontos-socorros, unidades básicas e hospitais têm o dever legal de fazer a notificação compulsória de qualquer suspeita ou confirmação de violência física, sexual ou psicológica contra crianças e adolescentes, e de comunicar os órgãos de proteção previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, como o Conselho Tutelar.
| Quem | O que não pode acontecer | O que se espera |
|---|---|---|
| Escolas | Dizer que "não existe bullying"; ignorar denúncias de pais e estudantes; se limitar a punições burocráticas. | Reconhecer o bullying como fenômeno real; mediar conflitos; manter projetos preventivos; contar com psicólogo escolar. |
| Pais e responsáveis | Tratar a dor como "frescura"; mandar a criança "revidar com violência"; culpar a vítima; fugir do diálogo. | Conversar sem julgamento; acolher o sofrimento; agir junto à escola; buscar apoio terapêutico. |
| Profissionais de saúde | Gritar com quem foi agredido; minimizar queixas físicas; dar diagnósticos apressados; deixar de notificar. | Atender com cuidado e atenção; fazer a notificação compulsória; acionar o Conselho Tutelar e as autoridades. |
O poder transformador da arte
A música que ajuda a levantar a cabeça
Em cenários de solidão e desamparo, a arte pode ser um recurso vital de sobrevivência psíquica e de reconstrução da identidade. Comigo foi assim com a música "Express Yourself", de Madonna. Nos anos 1990, gravei o show dela em fita VHS e, depois, encontrei a tradução da letra numa revista. A mensagem de afirmação pessoal e de exigência de respeito foi um divisor de águas para mim.
Ela me deu coragem para mudar de postura: eu, que me isolava no pátio, decidi mudar de grupo, passei a sentar com os bolsistas do time de vôlei e aprendi a me defender com palavras. Inspirado pela atitude de Madonna no documentário "Na cama com Madonna", entendi que precisava "ficar bocudo", isto é, desenvolver uma defesa verbal pronta e afiada para colocar limites e não aceitar mais a humilhação em silêncio.
Para as novas gerações, "Born This Way", de Lady Gaga, se tornou um hino de autoaceitação, que oferece a jovens LGBTQIAPN+ orgulho, pertencimento e validação, e responde ao preconceito com a celebração da própria identidade.
A literatura que denuncia e humaniza
A literatura dá nome às dores silenciadas, desmonta estigmas e promove empatia. Algumas leituras que recomendo:
- "Viado" e "Bicha", de Marcos Lemes: cada livro tem 24 contos, numa referência irônica ao número do veado no jogo do bicho. Os livros ressignificam palavras usadas como insulto e retratam, com poesia e realismo, a violência, os abusos cotidianos, o bullying dentro de casa e as cicatrizes da homofobia.
- "O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe: um romance poético sobre homossexualidade, solidão e desejo de pertencimento, por meio de afetos e famílias fora do convencional.
- "Manto da transição", de Adélia Nicolete: um registro sensível sobre transmasculinidades, com relatos sobre a transição de gênero e o vínculo entre mães e seus filhos trans.
Da escola ao trabalho: assédio moral e preconceito velado
Existe a ilusão de que as agressões da escola desaparecem na vida adulta. Mas a homofobia não enfrentada e o bullying não reparado mudam de forma e reaparecem, mais refinados, no ambiente de trabalho.
Nas empresas, isso vira assédio moral. A discriminação contra pessoas LGBTQIAPN+ aparece em processos seletivos, em que pessoas qualificadas são descartadas com a desculpa de "não ter o perfil da empresa", nas piadas de corredor, no isolamento promovido por colegas e na preterição em promoções e cargos de liderança.
Para interromper essa cadeia, é preciso uma psicologia organizacional comprometida com a saúde mental e com os direitos humanos. O psicólogo na empresa não pode se limitar a rotinas burocráticas de recursos humanos. Precisa olhar o clima organizacional, intervir contra o assédio, promover ações de diversidade e ajudar a construir ambientes de trabalho seguros e respeitosos.
Caminhos de cuidado e ética profissional
Reconstruir vidas marcadas pelo bullying e pela homofobia é um esforço coletivo. Antes de tudo, é preciso desfazer o tabu: buscar psicoterapia não é "coisa de louco", é um ato corajoso de autocuidado.
Na psicologia, alguns princípios são inegociáveis no atendimento à comunidade LGBTQIAPN+:
- Sigilo profissional: quem faz terapia tem direito ao sigilo sobre sua orientação sexual, identidade de gênero e vivências íntimas. Revelar essas informações a pais, familiares ou terceiros sem autorização é falta ética grave.
- As exceções ao sigilo: o Código de Ética Profissional do Psicólogo admite a quebra de sigilo apenas em situações excepcionais, como risco à vida da pessoa ou de terceiros, ou para proteger crianças e adolescentes de violência grave. Nesses casos, a comunicação é feita às autoridades de proteção competentes.
- "Cura gay" é proibida: a Resolução CFP nº 1/1999 proíbe qualquer psicólogo de propor ou realizar tratamentos para mudar a orientação sexual. A homossexualidade não é doença, e a Organização Mundial da Saúde a retirou da classificação de doenças em 1990. Profissionais que adotam essas práticas devem ser denunciados ao Conselho Regional de Psicologia.
- Compromisso social: a psicologia, a saúde e a educação não podem ser neutras diante da opressão. Cada profissional, educador, mãe, pai e cidadão pode ser agente de transformação, denunciando a violência e acolhendo a diversidade.
Reparar também é possível na vida adulta
A psicoterapia junguiana é um espaço seguro, sigiloso e afirmativo para elaborar as marcas do bullying e da homofobia, no seu tempo. Atendo online para todo o Brasil e presencialmente em Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo.
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