Uma pauta que já deveria estar superada
No Brasil, a união estável entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2011, e desde 2013 os cartórios são obrigados a celebrar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Mesmo assim, em outubro de 2023, uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que tentava proibir esse casamento. A volta dessa pauta ao Congresso não é só um retrocesso jurídico: é um ataque à dignidade humana e a direitos civis conquistados com muita luta pela população LGBTQIAPN+.
A insistência em revogar direitos e fiscalizar a afetividade alheia não pode ser entendida apenas como divergência política ou como uma fé ingênua. É um fenômeno psicológico profundo.
Pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a compulsão por dominar o outro, apagar a diferença e suprimir a liberdade alheia encontra explicação na sombra coletiva. Quando uma sociedade se recusa a encarar os próprios conteúdos reprimidos, seus desejos inconfessáveis, suas frustrações e sua própria maldade, ela projeta esse lixo psíquico sobre as minorias, e o afeto do outro vira o inimigo a ser destruído.
Do coletivo ao individual
Para entender as dinâmicas de massa que sustentam o preconceito, vale lembrar uma virada importante proposta por Jung. Enquanto outras correntes partem quase só do indivíduo para explicar a sociedade, a psicologia analítica também faz o caminho inverso: olha como o coletivo atravessa cada pessoa.
Como mostrou a psiquiatra brasileira Nise da Silveira em "Imagens do inconsciente", a psique individual é profundamente moldada e atravessada pelo coletivo. A mente não é uma folha em branco nem uma ilha isolada. Ela navega sobre as águas do inconsciente coletivo, uma camada profunda compartilhada por toda a humanidade, cujas forças podem levar tanto à criação cultural e espiritual quanto aos abismos do autoritarismo e da barbárie.
Arquétipos, complexos e contágio psíquico
Três conceitos junguianos ajudam a entender o funcionamento da intolerância:
- Arquétipos: padrões universais e herdados da psique, como moldes ou roteiros de comportamento presentes no inconsciente coletivo de toda a humanidade.
- Complexos: formam-se quando uma experiência marcante se organiza em torno de um núcleo arquetípico. Com forte carga afetiva, o complexo age com autonomia, como uma subpersonalidade que toma a consciência e conduz o comportamento à revelia da razão.
- Contágio psíquico: no livro "Presente e futuro", Jung alerta para as epidemias psíquicas, em que a psique de uma coletividade vai sendo contaminada por discursos de ódio e pânicos morais.
Ao longo da história, demagogos, líderes autoritários e fundamentalistas aprenderam a usar as vulnerabilidades sociais, os traumas não elaborados e as frustrações das pessoas para provocar esse contágio em massa. Quando o arquétipo do bode expiatório, ou do inimigo comum, é ativado, a massa abandona a responsabilidade sobre a própria vida e entrega cegamente sua autonomia a figuras autoritárias. O ciclo se repete porque, ativado o arquétipo, a sociedade volta a encenar o mesmo roteiro de perseguição e violência.
Amor e poder
Os pares de opostos
A psique se organiza em pares de opostos, como luz e sombra, bondade e maldade. Quando a consciência assume uma postura unilateral e se proclama pura, santa ou moralmente impecável, o polo oposto não deixa de existir. Ao contrário: quanto mais a consciência se diz "de luz", mais o ódio e a destrutividade são empurrados para a sombra, de onde passam a agir de forma subterrânea e descontrolada.
"Um é a sombra do outro"
Jung descreveu com precisão a oposição entre amor e poder:
"Onde o amor reina, não existe vontade de poder; e onde o poder predomina, falta o amor. Um é a sombra do outro." (Carl Gustav Jung)
Onde domina a necessidade de dominar, fiscalizar e ditar como o outro deve viver e amar, o amor desaparece. A tentativa de revogar o casamento igualitário mostra essa contradição: o discurso fala em amor e em defesa da família, mas a prática revela o exercício do poder. Essa incoerência aparece no cotidiano:
- A falsa preocupação com o dinheiro público: há líderes religiosos que se indignam publicamente com o dinheiro da prefeitura gasto em imagens religiosas de outras tradições em vias públicas, mas não questionam a imunidade tributária das próprias igrejas.
- A assimetria na convivência religiosa: há quem bata à porta dos outros para pregar e orar, mas se recuse a ouvir um ponto cantado de Exu ou a qualquer troca equilibrada com outras tradições. Não se busca o diálogo, e sim a dominação.
- O dízimo como suborno: a mensagem cristã pode ser distorcida quando a contribuição deixa de ser expressão de amor e vira uma tentativa de comprar favores divinos, poder terreno e uma licença moral para julgar o próximo.
| O discurso declarado | A sombra em ação |
|---|---|
| A pregação do amor cristão. | A obsessão em fiscalizar a vida afetiva e sexual alheia. |
| Agir "em nome de Deus". | Usar o Estado laico para impor dogmas. |
| A autodeclaração de pureza e moralidade. | Hipocrisia, apego às aparências e mentira. |
| A oferta de salvação, acolhimento e perdão. | O dízimo como suborno, violência psicológica e linchamentos morais. |
A sombra coletiva e a projeção
Os dedos apontados e "Um inimigo do povo"
A projeção funciona como no conhecido ditado: quando apontamos um dedo para alguém, três dedos apontam de volta para nós, e o polegar aponta para cima, para Deus. Esse dedo voltado ao divino simboliza a tentativa de transferir para a vontade de Deus a responsabilidade pela própria maldade e intolerância.
Na vida pública, invocar o nome de Deus virou um salvo-conduto para o autoritarismo. Basta a alguém pronunciar a palavra "Deus" para que muitas pessoas o coroem como figura de virtude, ignorando suas atitudes. Versículos fora de contexto são usados para alimentar a violência, enquanto se fecham os olhos para os trechos das mesmas escrituras que condenam a hipocrisia e os vendilhões do templo.
Essa dinâmica lembra a peça "Um inimigo do povo", de Henrik Ibsen, que ganhou uma marcante montagem brasileira com Fred Allan e Pascoal da Conceição. Na história, o médico Stockmann descobre que as águas medicinais da cidade, sua principal fonte de renda, estão contaminadas e causando doenças. Ao denunciar, ele é declarado "inimigo do povo" pela própria população, que prefere calar o mensageiro a encarar a contaminação, porque a verdade ameaça lucros e privilégios.
Do mesmo modo, quando psicólogos, defensores dos direitos humanos e ativistas apontam a toxicidade da sombra coletiva, a massa contaminada muitas vezes prefere demonizar quem denuncia a ter que limpar o próprio inconsciente.
A perseguição ao diferente
Quando a fé é desvirtuada e vira projeto de dominação política, o ódio passa a ser tratado como virtude. Isso ataca diretamente o princípio constitucional do Estado laico, que garante a liberdade de todas as pessoas. A sombra coletiva fundamentalista aparece em atos de perseguição:
- Racismo religioso: depredação de terreiros de candomblé e umbanda, destruição de imagens de orixás e ataques a espaços sagrados de religiões de matriz africana.
- Desigualdade na assistência religiosa: enquanto voluntários cristãos têm acesso livre a hospitais públicos para orar com pacientes, sacerdotes de religiões de matriz africana encontram portas fechadas para dar assistência espiritual aos seus fiéis.
- Ataques a direitos LGBTQIAPN+: tentativas de revogar o casamento igualitário com o pretexto de combater uma suposta "ideologia de gênero".
- Violência na escola: deboche e humilhação de crianças e jovens, promovidos inclusive por adultos, em nome de uma moral castradora.
Conclusão: o que a intolerância revela
O incômodo raivoso diante do afeto e do casamento de duas pessoas do mesmo sexo não diz nada sobre a comunidade LGBTQIAPN+. Revela, isso sim, a fragilidade psíquica e o terror interno de quem quer proibir.
A incapacidade de tolerar o amor igualitário nasce do medo da própria sombra não trabalhada. Ver pessoas gays, lésbicas, bissexuais e trans vivendo seus afetos com liberdade confronta o fanático com a estrutura rígida em que ele aprisionou a própria vida. O ódio ao casamento gay é, no fundo, inveja inconsciente da liberdade alheia e incapacidade de encarar a própria repressão.
As epidemias psíquicas não se desfazem por decreto, e sim pela tomada de consciência de cada pessoa. A ingenuidade e a passividade diante do fundamentalismo moral não são virtudes nem tolerância democrática: são omissões que abrem caminho para o autoritarismo.
A defesa do casamento igualitário, da laicidade do Estado e da proteção às religiões de matriz africana pede posicionamento firme de toda a sociedade e de quem é aliado de verdade. Direitos humanos não se negociam nem se submetem a maiorias religiosas passageiras. Diante da escuridão do inconsciente intolerante, a consciência, a solidariedade e a ação firme são o que sustenta a liberdade, a diversidade e a dignidade humana.
Seu afeto não precisa de autorização
A psicoterapia junguiana é um espaço seguro, sigiloso e afirmativo para pessoas LGBTQIAPN+ cuidarem das marcas do preconceito e viverem seus afetos com mais liberdade. Atendo online para todo o Brasil e presencialmente em Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo.
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