O encontro entre Clarice Lispector e Carl Jung

Imagine se sentar para tomar o refrigerante mais popular do mundo e, ao aproximar o copo da boca, sentir um cheiro sintético de esmalte de unha, sabão Aristolino e plástico mastigado. Essa imagem, tão física e incômoda, é uma ótima porta de entrada para o universo trágico e fascinante de A hora da estrela.

Publicado em 1977, pouco antes da morte de Clarice Lispector, o romance tem a curiosidade de trazer treze títulos possíveis. Mais do que uma despedida literária, a obra é um espelho psíquico da condição humana. Lido pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung, o drama da protagonista deixa de ser só uma denúncia social e se revela também uma encenação das dinâmicas do inconsciente.

Para acompanhar esse diálogo entre Clarice e a psicologia profunda, vale lembrar dois conceitos de Jung:

  • Arquétipos: estruturas virtuais, matrizes universais de comportamento presentes na psique humana. Todas as pessoas carregam o potencial dessas disposições.
  • Imagens arquetípicas: as representações concretas, narrativas e simbólicas desses arquétipos, que ganham forma na cultura por meio dos mitos, dos contos de fadas, da religião e da arte.

Por essa lente, A hora da estrela funciona como uma narrativa arquetípica moderna. A trajetória dos personagens expõe diferentes graus de alienação, mecanismos de defesa do ego e projeções da sombra, e mostra como a inconsciência individual se desdobra numa patologia social coletiva.

Macabéa: o conformismo e o limbo existencial

No centro do romance está Macabéa, jovem alagoana órfã que se muda para o Rio de Janeiro depois da morte da tia, sua última parente viva. Mora na região portuária, divide um quarto escuro com outras quatro moças e se alimenta quase só de cachorro-quente. Macabéa vive num "limbo impessoal". Sua existência se resume ao automatismo de inspirar e expirar, sem nunca ter descoberto que é possível desejar, esperar ou reivindicar uma vida melhor.

A privação dela não é só material. É também psíquica e cultural. Macabéa estudou só até o terceiro ano primário e trabalha como datilógrafa no centro da cidade, de modo mecânico: digita letra por letra, sem entender o sentido das palavras que registra. Sem acesso sequer à ideia de "cultura", seu universo mental é marcado pela ausência de diferenciação do ego.

Clarice acentua essa miséria com detalhes físicos dolorosos. Macabéa dorme de combinação, com manchas de sangue pálido no tecido. Sofre com dor de dente constante por causa da dentina exposta. Dorme de boca aberta por causa do nariz entupido e se enrosca em si mesma nas noites frias para aproveitar o pouco calor do próprio corpo. Ao fundo, como um espectro, ecoa o violino de um homem magro e de cara amarela na esquina, que parece tocar para os mortos.

A incapacidade de reconhecer a própria opressão aparece no momento em que Macabéa encontra sobre uma mesa o livro Humilhados e ofendidos, de Dostoiévski. Ela se pergunta se teria sido ofendida e conclui, ingenuamente, que não. Macabéa aceita a dor e o desamparo como leis naturais do mundo, sem nenhum senso crítico sobre a própria condição.

O narrador, Rodrigo S.M., resume essa desconexão radical numa frase:

"Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim."

Mesmo nessa passividade quase absoluta, há pequenos impulsos de afirmação da vida. Comprar e usar um batom vermelho, uma escolha sem nenhuma utilidade prática, e o fascínio pela Rádio Relógio são buscas tateantes de sentido. Mas, ao absorver pílulas soltas de informação entre os tique-taques das horas, Macabéa não consegue transformar curiosidade em conhecimento.

Sem um ego estruturado para reagir ou impor limites, ela assume a imagem arquetípica do bode expiatório. Torna-se a tela em branco onde as pessoas ao redor projetam suas frustrações, violências e aspectos sombrios não reconhecidos.

Rodrigo S.M. e Macabéa: criador, criatura e as projeções da sombra

A existência literária de Macabéa não se separa de seu criador e narrador, o arrogante Rodrigo S.M. Com postura de demiurgo, de divindade caprichosa, ele confessa que criou a personagem a partir de um vislumbre rápido de uma moça anônima na rua. Sua narrativa é carregada de deboche, ironia, sarcasmo e um humor revestido de crueldade.

Como digo no vídeo, Rodrigo S.M. trata sua criatura como uma musa inspiradora que ele malha feito Judas em Sábado de Aleluia. Pela psicologia analítica, essa relação é uma ilustração didática da sombra, a dimensão psíquica que guarda os conteúdos inconscientes, reprimidos ou rejeitados pelo ego. Vale aqui o velho ditado:

"Quando João fala de Pedro, sabemos mais de João do que de Pedro."

Os ataques, o desdém e a repulsa que Rodrigo S.M. dirige à pobreza existencial de Macabéa revelam mais sobre os conflitos, a culpa e o vazio do próprio narrador do que sobre ela. Ao rebaixar a criatura, ele tenta proteger o próprio ego da percepção da fraqueza e usa o sofrimento alheio para acalmar a angústia e se sentir no controle de um destino.

Essa ambivalência fica evidente nas contradições da narrativa. Num raro momento de trégua, o narrador elogia a moça e lhe atribui uma inesperada "sensualidade", uma brecha por onde a sombra deixa escapar uma atração reprimida. Mas diante do desfecho trágico, ele foge de qualquer envolvimento emocional ou responsabilidade ética: encerra o relato, sai assobiando e diz que só se preocupa com a época dos morangos. O criador consome a dor da criatura como matéria-prima estética e, depois, volta tranquilamente ao seu privilégio.

O mosaico arquetípico dos personagens secundários

Os personagens que giram em torno de Macabéa formam um mosaico arquetípico do comportamento humano e mostram como diferentes tipos de egocentrismo e alienação operam na sociedade.

PersonagemPapel na narrativaSignificado arquetípico
Olímpico de JesusNamorado de Macabéa, operário nordestino que junta dinheiro para pôr um dente de ouro.Encarna a ambição fútil, o patriarcalismo tacanho e a falsa superioridade. Para esconder a própria ignorância diante das perguntas de Macabéa, recorre à dominação: "Sei, mas não quero dizer."
GlóriaColega de trabalho carioca que convida Macabéa para comer e acaba roubando o namorado dela.Representa a ambição social pragmática, a dissimulação e o padrão estético da época. Vira o ideal de abundância de Macabéa, cujo maior sonho passa a ser "ser gorda" como Glória.
O médicoProfissional insensível que atende populações vulneráveis e diagnostica a tuberculose de Macabéa.Representa a mercantilização da medicina e a apatia institucional. Diante da desnutrição extrema da moça, manda que ela "coma melhor", ignorando sua miséria. Trabalha pelo dinheiro, com o objetivo egoísta de um dia "não fazer nada".
A cartomanteFigura mística que lê o futuro de Macabéa enquanto desabafa sobre o próprio passado.Representa a promessa de salvação mágica e o comércio de ilusões. Oferece esperanças fáceis em vez de despertar a consciência.
Os transeuntesA multidão anônima na cena final do atropelamento de Macabéa.Representam a indiferença coletiva e a passividade social. Testemunham a tragédia humana e passam sem deixar vestígios.

Da ficção à realidade: agentes de transformação ou meros transeuntes?

A estrutura criada por Clarice ultrapassa a ficção e lança uma pergunta direta sobre a nossa postura ética diante do mundo. O entorpecimento psicológico retratado no livro encontra eco numa síntese do psicólogo Waldemar Magaldi:

"Pecado é estar inconsciente do que se faz ou deixa de fazer, agindo apenas como um autômato adestrado, mal-humorado, alienado ou egoísta, sem ter a dimensão das implicações e consequências deste fazer para o si mesmo e seu entorno socioambiental..."

Quando a cegueira individual se multiplica, forma-se o que Jung chamou de sombra coletiva. Uma sociedade de pessoas no piloto automático, que reagem por slogans, alimentam brigas nas redes sociais ou procuram bodes expiatórios para fugir das próprias responsabilidades, reproduz a engrenagem destrutiva de A hora da estrela.

Essa dinâmica se repete quando figuras públicas e lideranças adotam a postura de Rodrigo S.M. ou dos transeuntes: gestores que, diante de crises e tragédias sociais, preferem passear de jet ski ou aproveitar seus privilégios, ignorando o sofrimento das Macabéas sob sua responsabilidade.

A literatura nos convida a um exame de consciência:

  • Agimos como Macabéa, de forma resignada, passiva e sem consciência dos nossos direitos e do nosso potencial de transformação?
  • Agimos como Rodrigo S.M., numa suposta superioridade moral, apontando o dedo para as falhas alheias e descarregando frustrações em quem é mais vulnerável?
  • Ou nos omitimos como os transeuntes, assistindo à violência estrutural e às desigualdades sem reagir, passando pela vida sem deixar vestígios?

Vale lembrar que a sombra não guarda só defeitos e recalques. Ela também guarda potências adormecidas: a capacidade crítica, a empatia genuína e a força necessária para a mudança. Para libertar essas forças, é preciso atender ao chamado ético da consciência: "levanta-te e anda".

Conclusão: a literatura como despertar da consciência

A hora da estrela vai além dos temas da xenofobia ou do machismo isolados e entrega um retrato da inconsciência humana. Clarice expõe as engrenagens silenciosas que transformam pessoas em autômatos e tornam a sociedade cúmplice da barbárie.

A leitura crítica e o autoconhecimento são instrumentos de resgate da dignidade. O desafio que a obra nos deixa não é julgar as limitações dos personagens, e sim assumir a responsabilidade pelo nosso próprio processo de individuação, deixando de ser plateia para nos tornarmos agentes de transformação social.

Para refletir

  1. Em que momentos da sua rotina você percebe que age de forma automática e passiva, aceitando limitações impostas, como Macabéa?
  2. Quando você critica com veemência o comportamento de outra pessoa, especialmente nas redes sociais, consegue perceber que aspectos da sua própria sombra estão sendo projetados?
  3. Diante das desigualdades da sua comunidade, você tem agido como agente de transformação ou tem se omitido como quem passa sem deixar vestígios?

Olhar para a própria sombra é um ato de coragem

Na psicoterapia junguiana, a gente olha com cuidado para aquilo que projetamos no mundo e para as potências que a sombra guarda. Atendo online para todo o Brasil e presencialmente em Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo.

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